… Sílvia Lourenço

Culturismo-pt: Olá, Sílvia!
Obrigado por teres aceitado o nosso convite.

Sílvia Lourenço: Olá! Eu é que agradeço pela oportunidade.

Culturismo-pt: Primeiramente, conta-me: quando começaste a treinar?

Sílvia Lourenço: Desde muito cedo descobri o gosto pelo desporto e, à medida que o tempo ia passando e dava mais importância ao que via no espelho, mais crescia o gosto pelo exercício. No entanto, iniciei-me na musculação em 2003.

Culturismo-pt: Foi aí que nasceu o teu amor por este desporto que é o “Culturismo”?

Sílvia Lourenço: Sim, sem dúvida.

Culturismo-pt: O que mais te fascina neste desporto?

Sílvia Lourenço: Sem sombra de dúvida a disciplina, a superação, o autocontrolo e, seguidamente, a conquista do corpo idealizado por mim.

Culturismo-pt: Como é o corpo idealizado por ti?

Sílvia Lourenço: Um corpo atlético, harmonioso, com alguma definição e em forma.

Culturismo-pt: Porque é que idealizas um corpo assim? É um desejo que possuís já há algum tempo ou começou após entrares neste meio?

Sílvia Lourenço: Tenho de confessar que tem a ver com o tipo de corpo que, desde adolescente, sempre quis ter e com as características que não quero ter. Esteticamente, nunca gostei de ver ancas largas e corpos flácidos, por isso, sempre batalhei para que nunca tivesse um corpo com essas características. Por incrível que pareça, lembro-me que em adolescente me sentia fascinada pelos braços da cantora Madonna. Hoje em dia, não os acho nada de especial e as minhas referências estão num nível muito superior.

Culturismo-pt: Então, podemos concluir que o Culturismo já te fascinava nessa época mas que, devido ao estereótipo que a população no geral tinha do desporto em si, não sabias?

Sílvia Lourenço: Sim. Desde muito nova, senti-me de certa forma focada naquilo que eu queria para a minha imagem. Sempre digo que para estar bem psicologicamente, tenho de estar bem fisicamente, sendo que todos os dias é uma luta constante em busca da perfeição, pois só assim conseguimos evoluir.

Culturismo-pt: Como reagiam as pessoas ao teu redor a isso? Ao facto de gostar desse tipo de corpo?

Sílvia Lourenço: Existiam opiniões muito diferentes: umas diziam que também gostavam e outras diziam que não gostavam. Algumas até me diziam “Ah, tu não queiras ser assim”. É evidente que devemos ouvir a opinião dos outros mas temos de lhes dar a importância que cada um de nós acha que deve ter, pois devemos lutar pelo que nos faz sentir bem e pelo que desejamos para nós, independentemente da opinião dos outros.

Culturismo-pt: Quem é que te apoiou desde o início?

Sílvia Lourenço: O maior apoio que tive desde início e a quem eu devo um grande obrigada, e um pedido de desculpa também pela quantidade de vezes que aturou as minhas alterações de humor, foi o meu namorado.

Culturismo-pt: (Risos) Sofres muito de mal humor perto das provas?

Sílvia Lourenço: Tento controlar-me mas, às vezes, o cansaço, a falta de tempo, a redução de hidratos falam mais alto e acabo por perder mais facilmente a paciência.

Culturismo-pt: O que é que mais te irrita nessa fase?

Sílvia Lourenço: Às vezes, são coisas que estando num estado “normal” não me fariam a mínima diferença.

Culturismo-pt: Como, por exemplo, as pessoas respirarem? (Risos)

Sílvia Lourenço: (Risos) Vento não digo mas, barulho é uma coisa que me descontrola.

Culturismo-pt: Consideras-te uma pessoa calma?

Sílvia Lourenço: Acho que já fui mais calma. Hoje em dia, acho que perco a paciência mais facilmente.

Culturismo-pt: Sinceramente, é fácil para uma mulher praticar Culturismo?

Sílvia Lourenço: É tão fácil para uma mulher como é para um homem. No entanto, perante a sociedade, o culturismo nos homens é melhor aceite. Tem tudo a ver com estereótipos e com a forma como é visto pela nossa sociedade.

Culturismo-pt: Achas que isso, um dia, mudará? É certo que cada vez mais mulheres recorrem ao ginásio, coisa que não acontecia há uns anos.

Sílvia Lourenço: Tenho a certeza que um dia conquistaremos o nosso devido reconhecimento, porque este é um desporto como tantos outros. As mentalidades estão a mudar e aos poucos vamos ganhando terreno.

Culturismo-pt: O facto de haver mais modalidades femininas, ajuda a essa mudança de mentalidades?

Sílvia Lourenço: Acredito que possa ser por aí. O nosso espaço vai-se conquistando, quanto maior for o nosso número. É importante que nos façamos ver.

Culturismo-pt: O que é mais difícil, no caso das mulheres, numa preparação?

Sílvia Lourenço: Eu acho que as dificuldades para uma mulher numa preparação são as mesmas que as dos homens. O ser difícil depende muito da força psicológica de cada atleta.

Culturismo-pt: A ti, o que te custa mais?

Sílvia Lourenço: A mim, sinceramente, o mais difícil não é a força psicológica mas sim a falta de apoio externo, pois neste momento e, infelizmente, não tenho qualquer patrocínio. É essa a minha maior dificuldade.

Culturismo-pt: Dá para perceber que és uma pessoa recatada. Achas que é isso que te prejudica nesse campo?

Sílvia Lourenço: Sinceramente, não acho que seja isso que me prejudica. Não acho que apareça mais ou menos, nas redes sociais, que algumas atletas que conseguiram patrocínios. Dizem que é pelo número de seguidores nas redes sociais… Todos nós sabemos que ter muitos seguidores nas redes sociais não significa que os tenhamos na realidade.

Culturismo-pt: Este ano, entraste para a Selecção Elite de Prata, da PFBB. Esse factor não te ajudou?

Sílvia Lourenço: Infelizmente, até agora esse factor não foi tomado em consideração, o que me deixa bastante triste.

Culturismo-pt: Em contrapartida, ajudou-te a tornares-te um exemplo para as novas atletas desta modalidade. Deixa-te feliz seres um símbolo do BodyFitness português?

Sílvia Lourenço: Sem dúvida que me deixa muito feliz e espero ser uma fonte de inspiração para muitas delas, quer sejam experientes ou iniciantes. E que o meu exemplo as faça acreditar que tudo é possível, basta acreditar.

Culturismo-pt: A tua primeira prova internacional foi o Mr. Olympia, Marbella, onde conseguiste o 6º lugar. Qual foi a sensação? Como foi ocupar um lugar no Top 6?

Sílvia Lourenço: Senti-me muito feliz. Foi como se tivesse ganho o primeiro lugar, pois tinha vindo de uma desilusão e essa classificação, em Marbella, veio dar-me ânimo para voltar a acreditar em mim. Só quem sobe a um palco e sente o seu esforço recompensado, sabe as emoções que sentimos lá em cima.

Culturismo-pt: As desilusões ajudam-nos a arranjar forças para melhorarmos. Foi o que te aconteceu?

Sílvia Lourenço: As desilusões ajudam-nos a arranjar forças para mostrarmos aquilo que realmente somos capazes de fazer. Ajudam-nos a melhorar, a não desistir e a ir mais além. Aquilo que nos pertence virá até nós mais cedo ou mais tarde.

Culturismo-pt: Como depois se comprovou, na Grécia, onde ficaste em 2º lugar. Como foi ficar na linha de trás, à espera do resultado, ciente de que eram apenas duas atletas?

Sílvia Lourenço: Foi um misto de emoções; uma mistura de pés no ar com pés assentes na terra. Naquele momento, tudo podia ser possível e acreditei até ao último momento, mas fiquei muito feliz com o 2º lugar! Valeu a pena todo o esforço e dedicação.

Culturismo-pt: Ultimamente, tens competido mais internacionalmente que nacionalmente. Qual foi a prova mais “assustadora” em que participaste?

Sílvia Lourenço: Nenhuma delas me assustou mas, a que mais desejei e a que me deixou mais apreensiva foi o Mundial. No entanto, considero que de todas foi a que menos bem me correu.

Culturismo-pt: Porquê? Estavas nervosa?

Sílvia Lourenço: Teve a ver com a condição física que apresentei em palco. Talvez pelas condições climatéricas completamente diferentes das que estava habituada, falta de descanso… Nervosismo não porque, ao contrário de muitos atletas, antes das provas sinto-me muito calma.

Culturismo-pt: Tens algum ritual antes de subir para palco?

Sílvia Lourenço: Não tenho nenhum ritual mas, quando subo ao palco faço questão de pisá-lo primeiramente com o pé direito.

Culturismo-pt: E até agora tem-te corrido bem, portanto, acho que deves continuar a fazê-lo! (Risos)

Sílvia Lourenço: Sim!

Culturismo-pt: Pode-se dizer que a tua carreira internacional começou este ano que passou, 2016. Onde anseias chegar?

Sílvia Lourenço: Anseio chegar até onde os sonhos terminam: no topo!
Mas mais importante do que chegar ao topo a nível competitivo, é chegar ao topo no reconhecimento dos outros; é sermos uma fonte de inspiração como atletas, profissionais e como pessoas. É muito importante que não deixemos de ser quem somos e que não percamos a humildade por querermos atingir nossos objectivos. Costumo dizer: “chegarei até onde Deus me levar”.

Culturismo-pt: Para 2017, já tens o teu calendário competitivo planeado?

Sílvia Lourenço: Está mais ou menos pensado. Gosto de ir por etapas e ver como vai correndo a preparação.

Culturismo-pt: No que pretendes ser diferente de 2016?

Sílvia Lourenço: Pretendo ser melhor: apresentar uma melhor condição física, mais maturidade muscular, melhor simetria e melhores resultados!

Culturismo-pt: Finalizando, como é o interior da Sílvia Lourenço?

Sílvia Lourenço: Isso é quase como aquela pergunta: “o que dizem os teus olhos?”! (Risos) Procuro ser uma pessoa com os pés assentes na terra, que não suporta injustiças, que defende os mais “fracos”, que dá muita importância à humildade e ao bom carácter. Acima de tudo, tenho sempre presente a lembrança do ponto onde comecei.

Culturismo-pt: Obrigado, Sílvia, pelo tempo que me dispensaste a responder a estas perguntas. Espero que consigas tudo o que sejas e um pouco mais.

Fico à espera de te ver nos próximos campeonatos!

Sílvia Lourenço: Eu é que agradeço. Foi um gosto enorme ter tido esta oportunidade. Obrigada de coração. Felicidades para a tua vida pessoal e profissional!

Para seguir mais de perto o trabalho da Sílvia Lourenço, ficam:
Facebook: https://www.facebook.com/silvia.lourenco
Instagram: @silvialourencoifbb

 

 Texto: Dud@
Fotografia: NunoBaptista.com