… Mónica Duarte

Culturismo-pt: Olá, Mónica!
Obrigado por teres aceitado o nosso convite.

Mónica Duarte: Obrigado eu, por ser seleccionada para a entrevista.

Culturismo-pt: Primeiramente, há quanto tempo treinas?

Mónica Duarte: Treino cardio e musculação, para manutenção, há uns 16 anos. Um trabalho mais específico, para competir, só faço há 3 anos.

Culturismo-pt: Porque é que começaste a treinar? Teve a ver com a estética ou também por saúde?

Mónica Duarte: Inicialmente, quando comecei a treinar em 2000, era por estar um pouco gordinha e queria perder algum peso, mas acho que exagerei pois cheguei a um peso de excessiva magreza: 42kg. Sempre quis ter um corpo mais atlético, por isso, posso dizer que era por estética; saúde sempre tive bem, felizmente. Em 2013, quando comecei a treinar para competir, com o Ricardo Jerónimo, comecei, então, a ter um peso que se pode dizer normal e saudável.

Culturismo-pt: Como e quando decidiste que estava na hora de pisares o palco?

Mónica Duarte: Posso dizer que sempre foi um desejo que tive, mas nunca o tinha feito pois nunca tinha encontrado um preparador que me desse segurança para tal. Sabia que haveria algumas alterações no meu corpo e não queria ficar transformada, principalmente no rosto. Em 2012, quando vim morar para Algés e comecei a treinar no Fitness Center, conheci o Ricardo e foi quando comecei a pensar que poderia realizar o meu sonho; tinha encontrado alguém que percebia muito de Culturismo e preparação de atletas.

Culturismo-pt: O que te fascina no mundo da competição que criou esse desejo?

Mónica Duarte: Acho que o que me fascina mais é mesmo o desafio de nos superarmos. Em chegar onde nunca imaginamos chegar. E, claro que adoro ir vendo as alterações dia-a-dia do meu corpo.

Culturismo-pt: Qual é a coisa que te dá mais trabalho na preparação?

Mónica Duarte: Acho que gosto de tudo um pouco na preparação. Mas na fase de secagem, posso dizer que é um pouco difícil, não pela dieta em si porque sou disciplinada, mas sim porque a minha profissão (massagista) requer muito esforço físico e, claro que com a restrição calórica, torna-se mais difícil e cansativo. A acrescentar os treinos de força e cardio, acho que precisava de mais comidinha. Mas também, é uma categoria exigente e quando se gosta, tudo se consegue.

Culturismo-pt: Começaste em Women’s Physique. Na primeira competição em que participaste, estavas nervosa?

Mónica Duarte: Sim, bastante. Aliás, acho que se vê pelas fotos: muito séria e movimentos muito presos. Mas acho que é o normal de qualquer atleta. Um misto de nervos, emoção, fome e sede. Na primeira prova, só queria que acabasse rápido. Agora, gostava que tudo demorasse mais tempo e a rotina fosse mais tempo.

Culturismo-pt: O facto de haver poucas atletas portuguesas nesta modalidade, também acabou por te deixar apreensiva? Não sabias o que esperar?

Mónica Duarte: É claro que é sempre uma incógnita como cada atleta vai aparecer e nunca devemos subestimar as capacidades de nenhum atleta, pois ninguém é melhor que ninguém e cada preparação é diferente e tem o seu lado carismático. Em Portugal, é um meio pequeno e, infelizmente, a minha categoria tem poucas, ou quase nenhumas, atletas… Acabamos por saber sempre quem vai subir ao palco connosco.

Culturismo-pt: É mais fácil competir contra pessoas que não conheces do que com pessoas que conheces?

Mónica Duarte: Acho que o grau de dificuldade é igual. Temos excelentes atletas nacionais e internacionais. Mas posso dizer que gosto mais de competir internacional; sinto-me mais calma, confiante e, o principal, estou a disputar com muitas atletas, não somos só uma ou duas e isso, para mim, é mais importante para a realização pessoal. Lá fora, claro, ninguém me conhece. Sou apenas mais uma atleta e aqui, a pressão, acaba por ser maior pois somos conhecidos e principalmente se já somos atletas de referência, como é o meu caso. A exigência é maior por parte do público em geral e isso acaba por nos deixar mais tensos em palco, pois não queremos falhar.

Culturismo-pt: Há alguma atleta internacional, com quem já tivesses partilhado o palco, que te deixasse receosa?

Mónica Duarte: Sim, claro, várias. Campeonato do Mundo de 2016, quanto fui chamada em primeiro lugar, no primeiro call out, com a campeã do mundo e no Campeonato do Mediterrâneo.

Culturismo-pt: Porquê?

Mónica Duarte: Porque são atletas muito fortes, que andam nisto há mais anos que eu e que se pode dizer que são mais experientes. Claro que para mim é um privilegio e muito gratificante neste momento, e em tão pouco tempo que estou neste meio, já estar nos tops europeus e mundiais, que são os mais importantes. Até porque já sou master e consegui ficar em tops mesmo com atletas seniores, em categorias seniores. Sou uma velhinha toda fit (risos).

Culturismo-pt: (Risos) Vais ser uma “Avozinha Fit”?

Mónica Duarte: Avozinha, não porque não tenho filhos; muito menos terei netos (risos). Mas uma tia fit, sim!

Culturismo-pt: Essa decisão de não teres filhos teve a ver com a competição ou foi apenas uma escolha pessoal?

Mónica Duarte: A decisão de não ter filhos não está relacionada com a competição, mas sim com uma opção pessoal, talvez derivado à minha infância. Depois, sempre fui uma pessoa muito dedicada à minha vida profissional, o que sempre me preenchia até demasiado. Contudo, nunca tive intenção de ser mãe. Sempre quis casar, ou ter um companheiro com quem partilhar a vida, viajar, nos dedicarmos muito um ao outro e vivermos em harmonia, mas filhos, não.

Culturismo-pt: Tens este “filhinho” que é o Culturismo, portanto. Qual é o aspecto mais bonito da modalidade de Women’s Physique?

Mónica Duarte: Para mim, Women’s Physique é a modalidade que mais gosto, mas sou suspeita. Claro que existem atletas que já passaram o limite mas existem outras atletas fenomenais e temos o exemplo da Juliana Malacarne. Gosto de Women’s Physique pela simetria, aspecto robusto e pelo detalhe de cada grupo muscular. Mas, sinceramente, o que mais gosto é os ombros largos que uma atleta desta modalidade tem de ter e, felizmente, é uma das parte a que sou dotada.

Culturismo-pt: É a parte que mais gostas em ti?

Mónica Duarte: Gosto de tudo em geral: dorsal, pernas, braços, mas sim, posso dizer que sim: que o ombro é o que mais gosto.

Culturismo-pt: Nas tuas rotinas individuais, usas música tipicamente portuguesa (fado). Já te emocionaste alguma vez?

Mónica Duarte: Acho que todo o processo é emotivo. Mas claro que sim. A música que mais me emocionou foi a que levei na Taça de Portugal de 2015: “Cancão do Mar”. Se tivesse mais tempo de rotina teria levado a “Gente da Minha Terra”.

Culturismo-pt: Há algum motivo para que escolhas esse tipo de música ou é apenas porque gostas?

Mónica Duarte: Inicialmente foi porque como competia internacionalmente, gostava de levar uma música do meu país e escolhi estas por serem cantoras conhecidas internacionalmente. Contudo, percebi que não tem impacto e até me pode prejudicar, como aconteceu. Se voltasse a competir, já não levaria música portuguesa.

Culturismo-pt: Todo o processo pré-competição é trabalhoso e detalhado. No que perdes mais tempo? Sem falarmos da dieta e nos treinos.

Mónica Duarte: Nunca pensei bem nisso até porque sou muito metódica e as coisas já saem naturalmente. Posso dizer que, apesar de não ir competir, continuo a fazer tudo normal: dois treinos diários, trabalhar e à noite confeccionar toda a comida para o dia seguir. Acho que o mais trabalhoso mesmo é colar os brilhantes no bikini.

Culturismo-pt: Quem foi a(s) pessoa(s) que mais te apoiou, durante todo este processo?

Mónica Duarte: O Ricardo Jerónimo é o principal, que sempre esteve ao meu lado, em tudo. Depois, claro, toda a minha equipa de competição, que se ajuda mutuamente.

Culturismo-pt: O teu preparador – Ricardo Jerónimo – é uma peça essencial na tua vida competitiva e já estás com ele há alguns anos, coisa que por vezes é rara acontecer com outros atletas. Quais os aspectos que contribuem para manterem uma relação profissional tão duradoura?

 Mónica Duarte: Sim, é a peça mais importante da minha vida. Poucos são os verdadeiros atletas que trabalham com o Ricardo e que querem trocar de preparador. Temos o caso do Rui Batista. Primeiro que tudo, o Ricardo é uma pessoa muito inteligente, profissional e sabe o que faz. Para mim, um bom preparador não é aquele que lê só livros, mas sim aquele que sabe o que é ser atleta; que já passou pelo mesmo e reconhece as necessidades individuais de cada atleta. Isso é um dos fortes dele. Depois, para além de experiência, o Ricardo tem muito conhecimento, humildade e vontade de aprender com os melhores. Tem a sua parte humana, claro: é exigente e quer resultados, mas está sempre do lado dos atletas em tudo. Acompanha os atletas para todo o lado e acaba por ser mais que um preparador; é um amigo e, por vezes, até um psicólogo, na nossa fase mais crítica.

Culturismo-pt: Um preparador, para ti, deve ser um pouco de muitas coisas?

Mónica Duarte: Sim. Para muitos, um preparador pode ser só quem faz planos de treino, dieta e suplementação. Mas nós estamos habituados a muito mais porque o Ricardo não faz só isso; faz muito mais e, por isso, também as diferenças são notáveis nos seus atletas. Acho que o Ricardo não faz isto só apenas pela profissão, mas sim pelo amor que tem à modalidade.

Culturismo-pt: É o segundo ano que estás na Selecção Portuguesa. Isso é um motivo de orgulho mas também de pressão?

Mónica Duarte: Eu estou habituada a lidar com a pressão. Quer profissionalmente, quer pessoalmente. Sinceramente, se não sentir pressão, também não tenho motivação. A pressão não me assusta pois sei que dou sempre o meu melhor e isso é notável na minha evolução.

Culturismo-pt: O tipo de pressão que sentes no trabalho está relacionado com a competição?

Mónica Duarte: Não. Pressão de números; de objectivos mensais.

Culturismo-pt: Como massagista, trabalhas com todo o tipo de pessoas. Notas diferença entre as pessoas que conhecem o Culturismo e as que não conhecem?

Mónica Duarte: Sim, claro. Trabalho num ginásio, cujo foco é completamente diferente, mas o facto de eu competir e as pessoas irem assistindo à minha preparação, acabou por desmistificar alguns aspectos pouco claros.

Culturismo-pt: Qual é a pergunta mais frequente que te fazem?

Mónica Duarte: Se gosto de me ver assim, musculada.

Culturismo-pt: Essa pergunta está relacionada com estereótipos criados para o padrão de beleza feminino?

Mónica Duarte: Sim, talvez.

Culturismo-pt: Para 2017, quais são os teus planos?

Mónica Duarte: Descansar. Não tenciono competir.

Culturismo-pt: E, como é o interior da Mónica Duarte?

Mónica Duarte: Uma pessoa muito emotiva, sofrida emocionalmente, mas ao mesmo tempo forte e com vontade de vencer.

Culturismo-pt: Obrigado, Mónica, por este tempo que me disponibilizaste para te conhecer um pouco mais. Espero que consigas tudo o que desejas e fico à espera de te ver, novamente, em cima do palco! Muito obrigado.

Mónica Duarte: Obrigado!

 

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Instagram: @monicaphysique

 

Texto: Dud@
Fotografia: NunoBaptista.com