… Fábio Lopes

Culturismo-pt: Olá, Fábio! 
Obrigado por teres aceitado o nosso convite.

Fábio Lopes: Olá. Eu é que agradeço o gesto de reconhecimento pelo convite.

Culturismo-pt: Comecemos com a pergunta da praxe: há quanto tempo começaste a treinar?

Fábio Lopes: Bom deixa fazer contas… Cerca de 10 anos.

Culturismo-pt: Porque é que começaste a treinar? Foi uma questão estética ou apenas de saúde?

Fábio Lopes: Sempre pratiquei desporto desde muito, muito cedo e a determinada altura o club onde eu jogava basquetebol federado, deixou de ter basquetebol. Então, senti necessidade de procurar outra modalidade. Como também não me sentia muito bem por ser muito magrinho, decidi inscrever-me num ginásio para continuar a praticar desporto e ao mesmo tempo tentar ganhar alguma massa muscular!

Culturismo-pt: E quando é que decidiste dar o salto para os palcos?

Fábio Lopes: Sinceramente, foi como amor à primeira vista! No ginásio onde comecei, havia competidores e rapidamente comecei a ganhar gosto por aquela entrega; aquela disciplina na dieta, nos treinos, as mudanças no físico nos momentos que antecedem as provas. Então passado uns tempos (uns bons anos), decidi que já reunia algumas condições físicas (exigidas no Culturismo) para puder demonstrar um pouco do meu trabalho. Assim foi; competi no campeonato nacional de 2009.

Culturismo-pt: Foi um processo difícil, decerto. O que te custou mais? Sentiste que foi mais complicado ganhar massa muscular por seres magro?

Fábio Lopes: Sim, claro. Foi um processo demorado. Aliás, continua a ser; procurar sempre aumentar massa muscular é um processo contínuo, de entrega e sacrifícios; diria uma devoção diária. O que mais custou sinceramente foi nos primeiros anos conseguir escapar nos empregos para comer de x em x horas, e também a família aceitar este desporto por desconhecimento e por medo. Hoje em dia, esse papel está mais facilitado: existe mais informação, mais modalidades, mais divulgação mesmo nos media.

Culturismo-pt: A tua família ainda é um pouco céptica com este desporto ou já passou?

Fábio Lopes: Passou completamente. Aliás, hoje têm um grande orgulho em mim. Quando há jantares de família ou festas, têm o cuidado de perguntar o que quero para comer para não sair do meu padrão e quando me vêm comer algo fora do “meu regime” até me fazem sentir mal porque rapidamente me chamam à atenção. Até perco a vontade de saltar a dieta ao pé deles. Sinceramente, são um grande suporte para mim agora.

Culturismo-pt: Ai tu comes fora do teu regime… Deixa que logo vou contar ao teu preparador…

Fábio Lopes: Somos todos filhos de deus. Temos de errar algumas vezes. Em off season, é aceitável alguns caprichos. Acho que até sou demasiado rigoroso comigo fora da dieta.

Culturismo-pt: Concordo totalmente! Quais são os teus caprichos preferidos?

Fábio Lopes: Vamos chamar caprichos a doces e salgados. Eu pessoalmente sou mais de salgados (pizza, hambúrgueres, queijos, muito pão com presunto, carnes bem saborosas, comidas bem confeccionadas) e claro uma sobremesa para terminar.

Culturismo-pt: É difícil resistir a isso, às vezes? Tens “recaídas” de vez em quando?

Fábio Lopes: Não, não! Quando estou em modo Pré-competição, não vacilo em nada, nem uma batata frita. Só o que está estipulado mesmo, nem mais um pouco de arroz. Sou muito exigente mesmo quando entro em “modo competição”.

Culturismo-pt: Ou seja, a tua parte favorita – a disciplina do desporto em si, é a componente que te faz amar esta modalidade?

Fábio Lopes: Sem dúvida um dos componentes mais fortes da modalidade. Repara: ainda que possas ter uma grande equipa, um grande suporte, não deixa de ser um desporto individual; és tu que tens de ter disciplina para te levantar à hora certa, fazer as tuas refeições, dar o máximo de ti em cada treino, etc! Ninguém o vai fazer por ti.

Culturismo-pt: Já eras uma pessoa estritamente rigorosa ou adaptaste-te após entrares neste mundo do Culturismo?

Fábio Lopes: Já era! Quando era pequeno, meus pais contam que era louco por ter todos carros de brincar ordenados e arrumados no seu sítio; alguns, nem tirava da caixa para não estragar. Era muito organizado e metódico com as minhas coisas! Até o meu irmão nascer e partir os carros todos, sempre fui muito organizado rigoroso com as minhas coisas.

Culturismo-pt: Sei que também és tímido. Estavas assustado na tua primeira competição?

Fábio Lopes: Tímido? És simpática! Sou extremamente tímido. Não gosto de estar exposto a muita gente ou ter de falar para muitas pessoas! Sim, isto parece controverso porque afinal estou em cima dum palco a submeter-me a uma avaliação diante de uma multidão, mas nesses instantes o meu “chip” desliga (encontrei meu propósito de vida onde sou feliz e nesse instante não me lembro de nada; apenas quero pousar e expressar minha paixão pela modalidade com as poses). Mas estou melhor agora.

Culturismo-pt: Nalgum campeonato chegaste a pensar que ias ter um ataque de pânico por ver tantas pessoas a olhar para ti?

Fábio Lopes: Essas coisas são segredo, não se perguntam… Sim, alguns! Recordo o mais intenso que foi o Arnold Classic 2015: levava quase dois anos sem competir, a preparar-me para uma subida de categoria e tinha em cima de mim uma pressão enorme (imposta por mim). Queria muito triunfar pois levei dois anos a preparar-me esse para esse campeonato. Nessa manhã, nem consegui comer metade do que tinha de comer; estava muito, muito nervoso! Felizmente correu maravilhosamente, com o meu 3º lugar, diante de quase 30 atletas. Esta questão da timidez/insegurança/ansiedade também se trabalha, tal como um músculo, e felizmente aprendi a trabalhar a minha mente ­- está cada vez mais forte! Graças também a ter as pessoas certas ao meu lado em cada vertente.

Culturismo-pt: Mais do que “músculo”, para ti, o Culturismo também é um desporto mental?

Fábio Lopes: Sem dúvida! Tocaste num ponto importantíssimo! Excelente pergunta, só alguém atento consegue entender isso. A minha maior transformação não foi física foi – foi mental. Graças também a ter um mentor/preparador que incute isso nos seus atletas, crescemos muito mentalmente com ele! Posso deixar uma frase que ele sempre me diz: “Fábio os troféus e vitórias são importantíssimos mas mais importantes que isso é a pessoa que te tornas, porque os troféus caem no esquecimento mas a nossa evolução como seres humanos é a que prevalece“. Pode parecer muito blá blá blá mas acredita que faz muita diferença teres um mentor que não se preocupa apenas se comes 200g de arroz ou 40g proteína! Se a tua mente estiver em conexão com teu físico, sacas o dobro do rendimento.

Culturismo-pt: Achas que a relação atleta/preparador deve ser mais do que profissional? Também deve ser pessoal?

Fábio Lopes: Não, não tem obrigatoriamente ser pessoal, mas deve estimular o atleta a crescer em todas vertentes e não incentivar o atleta a ser desordenado ou incutir/gerar stress no atleta. Deve ser um mentor (bom mentor). Estimular para uma boa interpretação das vitórias e derrotas e, com isso, dar serenidade ao atleta para este estar em paz consigo e continuar a trabalhar centrado em todas as áreas da sua vida (desportiva, familiar, profissional). Não é fácil de explicar: no fundo, usar o desporto competitivo para formar melhores pessoas e não revoltadas ou com egos enaltecidos por derrotas ou vitórias.

Culturismo-pt: Alguma vez sentiste que podias ter feito melhor? Que se tivesses feito de outro modo, terias obtido melhor resultado?

Fábio Lopes: Tento sempre estar em coerência com o que sinto e o que faço; se faço de um determinado modo, não me arrependo ou não perco tempo a pensar como seria se fizesse de outra maneira. Se o resultado não é o melhor, foi porque alguém estava melhor que eu nesse dia. Assim sendo, volto para casa com mais vontade de trabalhar e voltar melhor.

Culturismo-pt: Já ficaste frustrado com alguma classificação que tenhas obtido? Pensaste que irias conseguir mais e depois não conseguiste.

Fábio Lopes: O Mundial de 2015 foi duro! Estava melhor que os atletas 2 e 3 classificados mas, como levava um ponto desfavorável no meu peito, fiquei penalizado (com toda razão e merecido) e desci para 4º lugar! Esse 4º lugar no primeiro mundial foi extremamente bom mas sabendo que senão fosse isso ficaria provavelmente no segundo lugar, foi duro os primeiros minutos; depois passou.

Culturismo-pt: Soube que o Campeonato do Mediterrâneo não estava na tua lista de competições. O que te fez mudar de ideias e arriscares?

Fábio Lopes: Sem dúvida, que bem informada estás! Bom trabalho de casa. Este último ano estava super focado apenas no Mr. Olympia de San Marino, Itália. Queria ganhar a minha categoria e assim seria a minha segunda vitória num Olympia e iria pedir o pro-card, por mérito. Acontece que em conversa com o Marco Sousa, uma pessoa experiente na modalidade, ele perguntou-me porque não arriscaria o mediterrâneo; iria “jogar em casa, ter a família, amigos e o estado de animo certamente seria muito maior”, para não falar de questões logísticas (confecção de comida em casa, viagens curtas, etc). O facto de ter pro-card não se discutia aqui porque sendo apenas para o campeão absoluto seria muito difícil para mim, que sou de uma categoria baixa de peso! Porém decidi arriscar e parece que estava escrito que esse seria o meu dia! Estava muito melhor que duas semanas antes, no mundial. O corpo reagia super bem a cada comida que fazia e cada vez que olhava ao espelho ganhava ainda mais confiança. Estava destinado a ser o MEU dia, acredito.

Culturismo-pt: Quando chamaram o teu nome como vencedor do Overall de Culturismo, o que sentiste? Qual foi a sensação de saber que havias ganho o prémio máximo da competição?

Fábio Lopes: (Suspiro) Muito difícil expor por palavras esse enorme sentimento. Estava a disputar o overall com grandes atletas: o nacional Rui Baptista (que muito admiro); o MEU colega de equipa Abel Martim, super atleta com um currículo enorme e um dos melhores culturistas do mundo; e o Manuel Cañadillas. Ainda que muita gente desse o feedback que estava muito renhido entre mim e o Manuel, jamais imaginava levar a melhor nesse dia. Um sonho feito realidade. Muita emoção/gratidão.

Culturismo-pt: Com essa vitória, tiveste acesso ao PRO-Card e pediste-o. Como é que vai ser a tua vida daqui para a frente? Vão mudar coisas na tua vida?

Fábio Lopes: Sinceramente, nos últimos anos da minha vida, vivo em prol do Culturismo; para o MEU sonho, sempre em equilibro com o papel de pai, de ter uma família a quem não posso deixar que falte nada e honrar meus compromissos. A partir desse equilibro, trabalho diariamente para a realização do sonho de estar nos EUA junto dos melhores; dos que via nas revistas quando comecei a treinar. Antes parecia muito distante, impossível. Agora, Deus/o universo deu-me a oportunidade de estar ali. Vou recusar? Jamais! Vou trabalhar ainda mais duro para honrar todo este trabalho e investimento de anos.

Culturismo-pt: As pessoas mudaram a maneira como lidavam contigo depois de teres aceitado o PRO-Card?

Fábio Lopes: Não perco tempo analisar isso. Cada pessoa vive com os seus pensamentos, as suas realidades, as suas crenças. Eu vivo com os meus e esses quero que sejam pensamentos saudáveis, positivos e de boa energia! Não posso viver de acordo como os outros lidam comigo. Repara como para muitos o Ronaldo é o melhor e para outros o Messi não tem comparação com ninguém. Para muitos, a Ferrari é top, para outros é a Porsche. Então, acho que não devemos vestir os pensamentos dos outros. Agradeço a todos os que me apoiam e os que não acreditam ou não apoiam respeito totalmente também.

Culturismo-pt: Qual é a figura Pro com quem gostavas de partilhar o palco?

Fábio Lopes: O primeiro que me vem à cabeça é o atleta Mark Dugdale, porque nunca mais me esqueço de ter comprado uma revista quando treinava apenas há 3-4 meses e ele saía como capa dessa revista. Eu pensei: “fogo quero ser assim” e, passado estes anos todos, tenho oportunidade de estar no 212 ao seu lado! É impressionante! Depois, o meu amigo Ricardo Correia, que me incentivou muito e marcou o meu começo também com muita motivação. É claro que depois vêm os mais conhecidos e grandes inspirações: Flex Lewis, Hide, John Meadows, José, Manuel Manchado, etc.

Culturismo-pt: Se pudesses nomear alguém que te deu força para ganhares este prémio, quem seria?

Fábio Lopes: Ao Miguel Ángel Martinez e à minha mulher, que me aturou todos estes anos.

Culturismo-pt: Para terminarmos, como é o interior do Fábio Lopes?

Fábio Lopes: Como o teu e como o de tantos: cheio de virtudes e defeitos!

Culturismo-pt: Obrigado por este tempinho que me disponibilizaste, Fábio. Espero tudo de bom para ti e sei que vais conseguir chegar longe!

Fábio Lopes: Eu é que agradeço! Confesso aqui que sou um grande admirador teu pelo teu profissionalismo e entrega. Admiro todas as pessoas que levam o seu trabalho, os seus sonhos, de forma dedicada e profissional como tu. Agradeço imenso este tempo e a forma inteligente e cuidada que me fizeste as perguntas. Parabéns também a todos vocês “IFBB Portugal” pela dedicação.

 

Para seguir mais de perto o trabalho do Fábio Lopes, ficam:
Facebook: https://www.facebook.com/fabilopes1000/?fref=ts
Instagram: @fabiolopes_1


Texto: Dud@
Fotografia: NunoBaptista.com